quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A conhecimento de ambiental nas artes

Michael Maia

Conceito de arte ambiental segundo o crítico Harold Rosenberg é quando “todos tipos de estímulos e de forças induzidas mecanicamente influem sobre o espectador, fazendo dele não mais um espectador, mas, por vontade ou por força, um participante e às vezes um criador.”.  
Esse termo entrou para o mundo das artes no século XIX, podendo hoje designar a várias obras e também movimentos diversificados. São obras que extrapolam as suas linguagens, podendo utilizar da música, escultura, pintura, literatura etc. O espaço da galeria muitas vezes é pequeno para uma obra deste conceito, por isso muitas vezes ela se instala e dali não sairá, devido ao grande tamanho e material pesado utilizado. Como na imagem, da estrutura de Vladimir Tatlin.



Percebe-se nos anos 60 que o movimento de ambiental, significava uma fuga dos museus “caixas fortes” e arriscar o artista a pensar em novos lugares, e confrontar o espectador com novas obras. Três grandes nomes se destacam no conceito, Beuys, Oticica e Smithsom.
Pode se afirmar que os três artistas possuem obras que são além do “particular”, não como objetos autônomos mas as esculturas consideradas como lugares. Como no caso da obra de Helio Oticica:





As grandes mulheres que (não) fizeram história na arte brasileira

                                                                                                                                     Thalita Fernandes



Em meio a tantas lutas e manifestações feministas em busca pela igualdade de gênero, vemos ainda, dois extremos: a desvalorização da mulher, sendo subjugada, tratada como inferior; e a busca por reconhecimento que por vezes se mostra exagerada, afetando até mesmo sua visão de conduta.
Eu acho que cada um tem que ser um pouco feminista. Não saindo pela rua com os seios a mostra em manifestações, mas buscando suas conquistas na sociedade através da imposição por respeito, pela mostra de valores e principalmente pelo trabalho.
Bom, tratando desse aspecto, o texto de hoje é “Os gêneros da arte: mulheres escultoras na belle époque brasileira” da autora Ana Paula Simioni. A escolha do texto se deu pela recorrência do tema. Ainda lutamos por reconhecimento do trabalho feminino, mas essa busca pela conquista de um espaço começou há tempos.
Dois nomes são muito citados ao longo do artigo: Julieta de França e Nicolina Vaz de Assis. O motivo? Mulheres com um pensamento muito a frente de seu tempo, capazes de destacar-se em meio aos homens pela capacidade e dedicação pela arte no Brasil em pleno século XIX. Infelizmente nenhum dos dois nomes é tão conhecido hoje em dia. Se você digitar “Julieta de França” no Google, não encontrará quase nada. Mesmo assim, vale a pena pesquisar mais um pouquinho e saber a fundo sobre essas duas mulheres que foram as percussoras nas artes plásticas e no meio acadêmico brasileiro.
Ambas foram mulheres que enfrentaram os preconceitos na academia e se matricularam nas disciplinas de artes plásticas para fazer disso sua profissão – o que até então era considerado passatempo para as mulheres. Mesmo com o título de “amadoras” conseguiram sair do Brasil e ficaram cerca de cinco anos estudando na Académie Julian, França. Nicolina foi financiada por seu marido e Julieta conseguiu uma bolsa de estudos pela Enba, onde estudava.
Voltaram para o Brasil em busca de fazer história, mas isso não aconteceu. Em uma disputa pela melhor maquete homenageando a República brasileira, Julieta não obteve sucesso, e não satisfeita com o resultado, reivindicou seus direitos, contrapondo a sociedade machista da época. Infelizmente Julieta bateu de frente com o diretor Rodolfo Bernardelli que controlava quase todas as transações do ramo artístico na época e isso desencadeou o fim das obras e sucesso de uma grande escultora brasileira.
Nicolina foi um pouco mais cautelosa e obteve mais sucesso. Em meio a tantos homens, se destacou por sua sensibilidade, não contrapôs ninguém e seguiu com seu trabalho, mostrando sua força. Hoje tem como grande obra a Fonte Monumental, situada na Praça Júlia Mesquita em São Paulo.

Esse é o exemplo de duas mulheres que batalharam seu espaço e merecem ser lembradas. Além disso, servem de inspiração para nós, mulheres que vivem em uma sociedade contemporânea, com tecnologia do século XXI e cabeça do século XIX.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Galeria Adriana Varejão em Inhotim

Isadora Canela

Na entrada, um convite: permita-se ir além da sanidade. Nada de assustador ou distante como dizem os jornais e conservadores puritanos, apenas a natureza, farta, bela e simples retratada em um singelo banco, branco, com traços leves. Envolto do azul turquesa da água e em contraste com o brilho dourado da vida, o convite, tão charmoso e instigante, torna-se, então, irrecusável. Adentro aos caminhos propostos a espera de delicadeza, encontro realidade. Nossos corpos, nossos órgãos e nossos sonhos, limitados e sufocados dentro do concreto, cinza, cruel e feio, construído pelo homem que estupidamente aprisiona a si próprio. O contraste é, no mínimo, interessante. A natureza alucinante, leve, singela, para a qual os homens levantam tantas armas, enquanto o concreto, tão aceito, tão comum, prende friamente nossos tripas, sangue e coração.
            Os caminhos se seguem, agora, sem delicadeza, busco questionamentos. No topo da escada pequeno caos, aos poucos os olhos se acostumam e entendem. Na sala o que se fala é tradição. Obra consagrada, é movida, como um quebra-cabeça desordenado. Afinal, que ordem é essa? Se o concreto prende, a tradição, quando inflexível, acomoda. Mas se tudo é mutável, liberdade!
            Os olhos e o coração se perdem na paisagem. O fim do caminho é aberto, incrivelmente belo. Uma temperatura da cor de primavera, com frágeis nuances entre azul e amarelo e pássaros. Pássaros de todas as cores, tantos amores, distâncias e tamanhos, pintados em bancos que pedem um segundo de paz. 
Em minha subjetividade encontro a arte que abre os olhos e encanta e liberta e ama.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Do Moderno ao Contemporâneo (Kátia Kanton)


Ana Cláudia Richardelli
Bruna Guimarães
Rita de Cássia Lellis

O SURGIMENTO

A Arte Moderna toma corpo principalmente com as grandes transformações trazidas pela Revolução Industrial no século XIX.

O francês Charles Baudelaire traduziu em suas poesias esse processo de urbanização das cidades e a mudança em suas visualidades. Criou o termo flâneur para se referir a quem transitava sem rumo e percebia as entranhas, os detalhes da cidade moderna.

Com a industrialização surge a burguesia, classe social que necessitava de uma nova forma de arte para se legitimar culturalmente. A partir daí a arte acadêmica, moldada, passa a dar lugar a propostas construídas por artistas que surgem em movimentos e contextos singulares, que os críticos sistematizaram como “ismos”.  Nascem assim, correntes como impressionismo, pós-impressionismo, expressionismo, fauvismo, cubismo, futurismo, surrealismo.



Surrealismo. Presença de elementos surreais, baseados na fantasia, no inconsciente. Muitas vezes possui ilusões óticas. Salvador Dali é um grande nome desse movimento.



 Fauvismo. Apesar do grande uso de cores intensas, busca de estabelecer harmonia, tranquilidade, pureza e equilíbrio nas obras de arte. Henri Matisse é um importante artista desse movimento.




Expressionismo. Forma de expressar sentimentos humanos e emoções intensas  como medo, angústia, dor, etc. Pinturas de caráter dramático e subjetivo.

Vincent Van Gogh foi o principal precursor. Outro importante pintor expressionista foi Edvard Munch, autor da conhecida obra O Grito (imagem acima).

O DESEJO PELO NOVO

O desejo pelo novo, pelo diferente foi o grande propulsor da Arte Moderna. Independente da singularidade de cada movimento, todos os artistas tinham suas aspirações de artes ligadas a noção do novo e de ruptura com aquilo que já havia de existente. O desejo era fazer uma arte contestadora, inovadora, que refletisse o tempo dos artistas.

Importância da fotografia

Inventada em 1820 e aprimorada em 1839, a fotografia teve impacto enorme sobre a arte no século XIX. Ela cumpriria o papel de registrar pessoas, paisagens e fotos históricos, função que até o momento cabia aos artistas. Com isso, eles passaram a ter mais liberdade para criar e realizar novas pesquisas e experimentos sobre a arte.

Para um melhor entendimento da arte é importante aliar a sensibilidade pessoal do observador a uma compreensão dos processos internos que mobilizam o artista como dos processos sócio-históricos que dão origem a sua obra.

Impressionistas abandonam lições acadêmicas e passam a pintar ao ar livre, buscando captar suas impressões das cenas cotidianas.

Cézanne, principal nome do pós-impressionismo, passa a explorar os objetos, principalmente frutas, sob a perspectiva de formas geométricas.



Já o futurismo italiano traduz um encantamento com o ritmo urbano das cidades e da crescente industrialização. Pinturas e esculturas expressam ação, movimento.  




O IMPACTO EXPRESSIONISTA

Desde o fim do século 19, houve a tendência da criação de pinturas que viriam a abandonar de maneira drástica e significativa a imagem realista. Nessa tendência, os artistas buscavam a essência da vida espiritual e sentimental, a qual sobressaiam sentimentos como o medo, solidão e o horror, bem como retratação de doenças e da morte.

O símbolo dessa corrente foi o artista Edward Munch, que retratava em suas obras suas contradições internas e tragédias pessoais, por meio da intensidade das cores escolhidas, as formas distorcidas e efeitos emocionais.

Durante esse período, na França, uma efervescência de manifestações artísticas que eram marcadas pela busca pelo inédito e pela forte exploração de cores e formas. Denominados como Fauves,  esse grupo tinha como desejo se desfazer de tudo o que é extra na representação de uma imagem.

MODERNISMO NO BRASIL

O modernismo no Brasil foi marcadamente influenciado pelos movimentos europeus. Os artistas brasileiros viajantes trouxeram da Europa e dos Estados Unidos os desenvolvimentos estéticos propostos pela vanguarda.

A polêmica exposição de Anita Malfatti em 1927 impulsionou este movimento. Ela exibiu em São Paulo algumas obras que criou após ter passado uma temporada em Berlim e Nova York. Com suas cores fortes e linhas tortuosas causou a ira de críticos como Monteiro Lobato. Essa exposição serviu como estopim, um incentivo para que seus amigos e colegas que também buscavam inovações artísticas, concebessem a conhecida Semana de Arte Moderna de 1922.


Torso, uma das obras expostas por Anita Malfatti.

Para a Semana de 22, alguns jovens artistas de São Paulo juntaram forças, entre eles, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Vicente do Rego Monteiro e Oswaldo Goeldi. Foi Di Cavalcanti quem teve a ideia inicial e contou com a ajuda de seus amigos escritores, Osvald de Andrade, Mario de Andrade e Graça Aranha para planejar a semana de arte.

Em 11 de fevereiro de 1922, os artistas organizaram no Teatro Municipal de São Paulo um evento que incluía uma exposição de arte, além de três noites com concertos, leituras de poemas e debates.

Essses artistas que renovaram a linguagem artística no Brasil haviam passado uma temporada na Europa e visto de perto as novas experiências artísticas de lá. O que os unia era a vontade de criar um modo de pintar e esculpir que se libertasse da maneira realista e clássica ensinada na Escola de Belas-Artes e que explorasse ingredientes brasileiros: com cores, luminosidade, paisagens e personagens do país. Cada um deles fez isso a sua maneira.


Legenda: Catalogo e cartaz da Semana de 22, feitos por Di Cavalcanti.

CONSTRUTIVISMO RUSSO

Ganhou destaque com a Revolução Russa em 1917. Esse movimento explorava um modo de representação geométrica com formas simplificadas e seriadas que retratavam o ser humano vivendo em um mundo industrial veloz e eficiente.

Foi um movimento importantíssimo para as artes das primeiras décadas do século XX, mas sua capacidade de criar uma nova linguagem estética e de influenciar o resto do mundo. Só floresceu com maior força depois do fim do governo de Stálin, que permitia somente a arte convencional, realista, que ficou conhecida como realismo soviético.

Um destaque do construtivismo russo

Kasimir Malevich é um nome importante desse movimento. Estudou em busca de tornar seus quadros cada vez mais simples em cores e formas, com apenas algumas tonalidades e contornos geométricos.

Criou o termo suprematismo para se referir a uma realidade que está além do que vemos.  Buscou em suas pinturas a não objetividade, um mundo livre da representação de coisas e objetos reais.

O quadro não é mais um objeto e sim uma ideia abstrata, estabelece ligação direta entre o mundo exterior (material) e o mundo interior (intelectual).

                                            
                                               uso de poucas cores e formas geométricas


Obra mais famosa de Malevich, “Quadro Negro” causou polêmicas por tamanha “simplicidade”. Objetivo de fazer uma arte abstrata, não objetiva, permite várias interpretações de quem o vê.

ABSTRATOS E NEOCONCRETOS NO BRASIL

Estes movimentos surgiram no período pós-Segunda Guerra Mundial, identificado pelo otimismo e por uma euforia gerada pela volta á paz e tornou-se um grande marco no Brasil. A necessidade de reconstruir uma Europa destruída equivalia a necessidade de construir um novo Brasil. O pais passava por um período de grandes promessas de desenvolvimento, com JK e seus “50 anos em 5”.

A arte abstrata irradia a nova realidade e começa a ganhar terreno como promessa de nova visualidade para um novo país. Com um esforço de uma elite formada principalmente pelos empresários exportadores de café, são criados novos museus que fomentaram o desenvolvimento dessa arte.

Já o concretismo na arte é a promessa de construção do novo, pois prega uma arte democrática, acessível a todos, em sua simplicidade e objetividade. Prega uma linguagem universal, livre de contextos específicos e do excesso de subjetividade e emotividade. Buscam uma arte que substitui a expressão emocional pela noção de pensamento e construção mental.

Grupo Ruptura

Em 1952, alguns paulistas fundam o grupo ruptura, que era centrado em torno do artista e teórico Waldemar Cordeiro, que promovia encontros para discutir os ensinamentos de mestres como Kandinsky e Mondrian. Assim que é fundado, eles lançam um Manifesto que rompe com a figuração e o naturalismo, considerando-os uma “arte antiga para uma realidade antiga”.


Manifesto do Grupo Ruptura

Grupo Frente

Dois anos depois, em 1954, surge no Rio de Janeiro o Grupo Frente, um novo grupo de arte construtiva, fundado por Lygia Clark, Lygia Pape e Ivan Serpa. Outros integrantes importante foram Helio Oiticica, Abraham Palatnik, Franz Weissmann, Cesar Oiticica, Elisa Martins da Silveira, Emil Baruch e Rubem Ludolf.

Este grupo reformulou as ideias lançadas pelo Ruptura, levando-as a outros limites. Eles criticavam o excesso de racionalismo teórico dos paulistas, e consideravam que a abstração geométrica podia ter alma e corpo. Um dos fenômenos mais importantes do neoconcretismo lançado pelo Frente foi a adesão de escritores, autores da nova poesia neoconcreta.

Lygia Clark e Hélio Oiticica vieram a se destacar nos anos seguintes ao substituir a preocupação com os limites da arte neoconcreta pelas questões da arte com o corpo como algo vivo, integrado ás experiências dos sentidos.


 Grande Núcleo (1960-1966), Hélio Oiticica.


SURREALISMO E INCONSCIENTE

Surrealismo foi marcado pelo desprezo aos limites da razão no processo de criação artística. O embasamento dessa corrente se deu nas teorias de Freud, que afirmava ser o inconsciente também responsável pelo comportamento e personalidade do ser.
Em 1924, os artistas divulgaram o Manifesto Surrealista, que explanava o interesse dessa corrente, evidenciado na busca pela liberdade de imaginação, tanto na literatura quando nas artes visuais por meio da retratação de sonhos, símbolos e associações do acaso em suas obras.

ENTRA EM CENA A ARTE CONTEMPORÂNEA

A Arte Moderna começa a sofrer um desgaste devido a sua característica de experimentação, e a partir daí, tem-se um processo de distanciamento do público. É nesse contexto que surge a Arte Contemporânea, que se consolidaria a partir da relação entre a arte e vida.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Lygia Pape: Escultora, gravadora e cineasta.

     
Fez parte do Grupo Frente, é uma das criadoras do Manifesto Neoconcreto. Escreveu a trilogia de obras: Livro da Criação, Livro da Arquitetura e Livro do Tempo, na década de 50. Na seguinte, trabalha com roteiro, montagem e direção cinematográficos ao mesmo tempo em que dá início a produção de esculturas em madeira e também dá vida ao Livro-Poema, composto de xilogravuras e claro, poemas.

Em 1971, produz o curta-metragem O Guarda-Chuva Vermelho, sobre o desenhista Oswaldo Goeldi. Na década posterior, é congratulada com uma bolsa de estudo da Fundação Guggenheim.

Ttéias1C

                     

Ttéia1C (2002), nome escolhido em função de fazer alusão a uma teia, é uma obra que simboliza a última etapa da carreira de Lygia Pape e sintetiza as indagações sustentadas durante a carreira dessa artista que é um dos mais significantes nomes da arte nacional a partir da segunda metade do século XX.
Ttéia é o resultado final quando se soma todas as fases da trajetória de Lygia. Desde a primeira, em 1977, com seus alunos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em que propunha a manutenção de fios esticados tendo a natureza como espaço. A segunda, que a artista espalhava panos e malhas por toda a cidade, incluindo prédios e casas. Somente no final da década de 90 é que a obra começou a tomar corpo com o que representa hoje: grandes instalações com fios metalizados ligando elementos da arquitetura, e que em Inhotim, une o teto ao piso.
Pape é reconhecida pela uma grande criatividade que desponta em seus trabalhos ao mesmo tempo em que une elementos como ‘’sensibilidade e humor’’. As obras de Lygia, em sua maioria, foram criadas para despertar no público as mais diversas reações, o que exige um tempo maior de apreciação. Dessa forma, não foram desenvolvidos para serem consumidos com urgência, mas sim com percepções e paciência.








terça-feira, 21 de outubro de 2014

Linda do Rosário – Obra de Adriana Varejão exposta no Centro de Arte Contemporânea Inhotim

                                                                                             Por Ana Luisa Costa 


Adriana Varejão é um dos maiores nomes da arte plástica brasileira contemporânea.
Para os trabalhos tridimensionais, que são fragmentos de arquiteturas, ela partia muitas vezes de fotografias que tirava em canteiros de demolições onde encontrava destroços de paredes ainda cobertas de azulejos. 

 Em 2002, enquanto preparava uma de suas exposições, ela soube pelos jornais que um prédio desabara no centro do Rio. Era um hotel de encontros chamado Linda do Rosário.

Sob os escombros, encontraram 2 dias depois um casal de amantes. De suas ruínas, Adriana tirou o modelo para as obras Linda do Rosário e Linda da Lapa.

O incidente no Hotel Linda do Rosário


“Linda do Rosário” era um prédio de cinco andares, localizado na Rua do Rosário, que caiu na tarde do dia 25 de setembro de 2002. Nesse caso, a tragédia só não foi maior porque foram ouvidos estalos na estrutura cerca de 20 minutos antes do desabamento, possibilitando que os hóspedes e empregados do hotel Linda do Rosário, que funcionava no local, fugissem a tempo. Tudo isso aconteceu devido a uma reforma mal executada em um restaurante no térreo, que abalou a estrutura do prédio, construído há quatro décadas.

No entanto, nem todos escaparam a tempo.

O porteiro do Linda Rosário estava com a mulher na recepção do hotel e, ao som do primeiro estampido, avisou aos demais funcionários que saíssem do prédio imediatamente. No momento em que descia a escada, lembrou das duas pessoas que ocupavam um quarto. ‘Interfonei e cheguei a bater na porta, mas não responderam’, contou.

 Dois dias depois, os bombeiros encontraram dois corpos em meio aos escombros. Ele, professor, tinha 71 anos. Ela, bancária, tinha 47. Seus corpos foram reconhecidos por suas respectivas famílias no dia seguinte.

O filho do professor não quis que o nome do seu pai fosse divulgado, segundo matéria do Terra, “em virtude das circunstâncias que envolveram sua morte, que poderiam denegrir sua imagem”. Uma reportagem publicada no jornal O Dia revelou o motivo desse pedido: a bancária e o professor estariam vivendo um romance secreto, de anos, que acabou sendo revelado por causa do desabamento do hotel Linda do Rosário. Seus corpos foram encontrados nus e abraçados sobre os restos de uma cama. Há quem diga que eles dormiam, ou que talvez decidiram permanecer unidos, sem fugir, cansados de se esconderem.

 Características das obras de Adriana Varejão

 Adriana utiliza a pintura como suporte para a ficção histórica e a exploração de temas como a teatralidade, o desejo e os artifícios presentes no barroco. Em suas obras tridimensionais, rupturas na tela apresentam um interior visceral sangrento, formado de elementos escultóricos ou arquitetônicos. Nos trabalhos recentes, a artista desenvolve ambientes virtuais geometrizados que remetem a açougues, botequins, saunas, piscinas e banheiros, em que retoma questões intrínsecas à pintura como profundidade, espaço e cor. Através da releitura de elementos visuais incorporados à cultura brasileira pela colonização, como a pintura de azulejos portugueses, ou a referência à crueza e agressividade da matéria nos trabalhos com “carne”, a artista discute relações paradoxais entre sensualidade e dor, violência e exuberância. 

No seu trabalho, difícil de classificar disciplinarmente, a carne, o sangue e, sobretudo a pele enquanto lugar que une ou divide interior e exterior, revelado e oculto, ganham com freqüência uma condição metafórica ou transformam-se em imagem forte de uma cultura que traz a violência e o sacrifício inscritos na matriz.

Talvez por isso, o seu horizonte estético seja o de uma beleza sanguínea, capaz de sobrepor erotismo, sublime e morte que, em vez de se apresentarem como elementos contraditórios, se tornam interdependentes.

“Visceral” é um adjetivo que costuma ser empregado para se falar de obras de arte que afetam a nossa sensibilidade de forma vigorosa e impactante. No caso de Adriana Varejão, a palavra ganha também um sentido literal: carne, vísceras e sangue são elementos recorrentes em sua produção, atravessada por questões sobre o corpo, a representação e a História.

Segundo Adriana, a idéia de carne, vísceras e sangue, que se tornaram vocábulos recorrentes em sua obra, surgiram a partir do uso de grande quantidade de tinta sobre a tela que foi naturalmente se tornando um corpo denso e espesso. A partir daí, Adriana passou a explicitar o sentido de corpo, fazendo incisuras e expondo interioridades, tratando a camada externa como pele. Ela pensa sempre em uma historia inscrita sobre um corpo, com diversas camadas dobradas, comprimidas, e muito acúmulo. “Quando vejo uma tela vazia imagino-a tão cheia a ponto de transbordar”.


Exposição Azulejão e Charques 

Realizada no Banco do Brasil de Brasília


Nessa exposição vemos os principais traços das obras de Adriana: Azulejaria mesclada a pedaços de carne e corpos.

"Varal"

                                                       “Pele tatuada à moda de azulejaria”

                                                                                “Heróis”

                                                            “Azulejaria em Carne Viva”

                                                   “América”


Folly

                                                                                           por Thalita Fernandes



Quem tiver o interesse e a oportunidade de visitar Inhotim não pode deixar de conhecer uma das galerias mais agradáveis do lugar. A G-14, Folly, da artista mineira Valeska Soares é um universo maravilhosamente aconchegante e reflexivo. Como escrito na placa de apresentação da obra: “Sua calculada posição, ao final do lago cercada por plantas, remete à uma experiência romântica e também introspectiva.”

Logo na chegada com um caminho recoberto por pedras ornamentais, as quais a sonoridade ao pisar estabelece um contato com o ambiente, é possível observar diversas flores encontradas em jardins residenciais, o que torna o ambiente familiar.

O interior da galeria é escuro e espelhado, tendo ao centro um vídeo projetado com três personagens aparecendo e desaparecendo na leveza de uma dança de salão. Por conta dos espelhos, a imagem vai se desdobrando em todas as paredes, sendo permitido estar em qualquer posição na sala para a dança.

Em determinado momento, você não vai querer mais assistir o vídeo, apenas fechar os olhos e se aprofundar no momento. Ao som de The Look of Love, você se sente em uma das novelas de Manoel Carlos. A vontade de dançar e rodopiar de um lado para o outro é imensa, só precisa ser desinibido.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A transposição do corpo na arte sensorial de Cardiff e Miller

Por Jéssica Miranda

Em The Murder of Crows (o assassinato dos corvos em uma tradução literal), de 2008, é uma instalação com 98 caixas de som montadas sobre pedestais, distribuídas à maneira de uma orquestra. O espaço contém cadeiras para que o visitante possa se sentar e entrar dentro desse pesadelo. Gerada por técnicas especiais de gravação e de reprodução polifônicas, a obra em áudio emana das caixas de som e é composta por cantigas de ninar, marchas, textos e composições musicais. Um som dá sequência ao outro, evocando uma narrativa onírica. A instalação foi concebida como um filme ou uma peça teatral, mas aqui as imagens e estruturas narrativas são criadas apenas pelo som. Inspirada na gravura de O sono da razão produz monstros (Goya - 1799), que demostra os terrores noturnos, os pesadelos. Entre os intervalos dos diversos sons que são “sentidos” pelo visitante, a voz de Janet Cardiff faz-se ouvir pelo megafone posicionado no centro, recitando sequências de pesadelos. Inhotim disponibilizou aos visitantes, um “roteiro” de tudo que ocorre no espaço, inclusive o relato de Cardiff é traduzido para que haja uma maior compreensão da obra.  A duração de toda a narração e sons tem tempo total de 30 minutos. 
          


Os tons mais escuros são atribuídos às criaturas, tornando-as assustadoras e transmitindo a ideia de assombrações. O escrito presente na mesa que o artista dorme, traz a seguinte inscrição: enquanto a razão dorme, os monstros aproveitam.

Janet Cardiff     
    A artista canadense é formada em fotografia e gravura pela Universidade de Alberta. Em 1983, filma em super 8 com George Miller (seu colega de faculdade, futuro marido e parceiro artístico) The Guardian Angel. É depois dessa experiência que Cardiff inclui em seu trabalho a sequência narrativa e experiências com som e movimento. A artista defini seu trabalho como um “passeio de áudio”.
  Cardiff tem reconhecimento internacional a partir de 1995 e já teve suas obras solos expostas em espaços como o Museu Louisiana na Dinamarca; San Francisco Museum of Modern Art;  National Gallery of Canada (essa uma exposição permanente); Hirshhorn Museum and Sculpture Garden nos EUA; MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York e na Bienal de São Paulo. 

George Bures Miller

   O artista é conterrâneo da esposa e vivem hoje em Berlim, ponto de efervescência artística da Europa. Desde do início da carreira tem criado colaborativamente a esposa, concretizando obras como The Pool Dark ,instalação multimídia que consiste em um quarto mal iluminado, decorado com papelão, tapetes, e coisas efêmeras e artefatos recolhidos, através do qual os visitantes ao se mover, provoca sons que interagem com segmentos musicais, partes de conversas, e pedaços de histórias e Instituto Paradise, um cinema de 16 lugares onde os espectadores assistiram a um filme , onde se tornam testemunhas de um possível crime, transformando o que se passa na tela em algo real.


A experiência

  Nas andanças que Inhotim proporciona, é um contraponto quando se chega ao Galpão Cardiff e Miller. Precisamos sentar e fechar os olhos. Sim, fechar os olhos. É dessa forma que conseguimos sentir de maneira mais profunda tudo que ocorre. Conseguimos imaginar que estranhos à frente de um pelotão de soldados; vemos a areia dançando com o vento, sentimos a brisa do mar, sabemos que existem gaivotas acima das nossas cabeças. Por vezes é preciso abrir os olhos apenas para se ter certeza que não existe ninguém andando ao nosso lado. A experiência é profunda e chega a arrepiar. Por mais que se tenha certeza que estamos à frente de caixas de som, nosso cérebro é bobo e cai facilmente no truque. Essa é a genialidade da obra, levar-nos  a um lugar muito distante de onde nosso corpo físico está, transportando nossa mente e alma para o ponto mais profundo de nosso inconsciente, onde moram nossos pesadelos, medos e angustias.









segunda-feira, 14 de julho de 2014

Kitsch

Bruno Cézar, Fernando Altoé, Ana Karolina e Nathan Fiorese

O termo kitsch é utilizado para designar o mau gosto artístico e produções consideradas de qualidade inferior.  Sua origem remonta ao vocabulário dos artistas e colecionadores de arte em Munique, em torno de 1860 e 1870, para designar objetos de arte, feitos de propósito para satisfazer a procura de uma nova clientela endinheirada.
Negação do autêntico, cópia e artificialidade são os significados frequentemente associados aos objetos e produções kitsch, encontráveis tanto nas artes visuais, na literatura e na música, quanto no design e na profusão de produtos que cercam o cotidiano, realçando o seu caráter popular.


Theodor Adorno, Hermann Broch e Clement Greenberg foram os teóricos que mais contribuíram para disseminar o conceito do Kitsch, contrapondo-o às obras moderna e de vanguarda. O estilo Kitsch dilacera todas as linhas que separam o belo do feio, o bom do mau-gosto, e convence o indivíduo não iniciado nos meandros da arte que, ao encontrar esta forma de expressão, ele se deparou com a mais elevada produção cultural. Os elementos que o compõem são sempre teatrais, sensuais, emocionais e excessivos.


De um ponto de vista estético, kitsch é uma arte eclética cujo princípio estrutural é mais acumulativo de que arquitetônico. Kitsch favorece a abundância, o elemento decorativo, a não-funcionalidade e a trivialidade. Produzido para ser vendido, kitsch adapta-se ao gosto do público, estimulando uma emocionalidade cómoda, perto do sentimentalismo. Em termos de recepção, kitsch é de assimilação fácil: gratifica as expectativas do consumidor e assenta numa medianidade de gosto que as mídias e a publicidade simultaneamente produzem e satisfazem.
A arte pop retira o sentido pejorativo que cerca o kitsch. Se apresenta como um dos movimentos que recusam a separação arte/vida, pela incorporação das histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema. Ao aproximar arte e design comercial, os artistas superam, propositadamente, as fronteiras entre arte erudita e arte popular, ou entre arte elevada e cultura de massa, flertando sistematicamente com o kitsch.







Fauvismo, Art Noveau e Metafísica

Bruna Guimarães, Júlia Moreira, Juliana Souza, Rita de Cássia Lellis 

Diante das correntes artísticas apresentadas, a nossa escolha por três delas foi baseada na curiosidade. Observando os nomes selecionamos aqueles que nos pareciam mais estranhos, para conhecer melhor os movimentos dos quais acreditávamos saber menos ou quase nada.
O primeiro deles foi o Fauvismo. O Fauvismo é uma corrente artística do início do século XX, tem como uma das características a máxima expressão pictórica, onde as cores são utilizadas com intensidade, a simplificação das formas e o estudo das cores. Os seus temas eram leves, e não tinham intenção crítica, revelando apenas emoções e alegria de viver. As cores eram utilizadas puras, para delimitar planos, criar a perspectiva e modelar o volume.
O nome da corrente deve-se a Louis Vauxcelles. Esse chamou alguns artistas de “Les Fauves” (que significa “feras” em português) em uma exposição em 1905, pois havia ali a estátua convencional de um menino rodeada de pinturas nesse novo estilo. Os princípios desse movimento foram: Criar, em arte, não possui relação com o intelecto ou sentimentos; Criar é considerar os impulsos do instinto e das sensações primárias; e a exaltação da cor pura. Seus principais artistas foram Henri Matisse, Maurice de Vlaminck, André Derain e Othon Friesz.


Legenda: A música - Matisse, 1939

A segunda corrente escolhida foi a Art Noveau. A art nouveau é um estilo artístico que interessa mais para as artes aplicadas (como a arquitetura, o design e as artes decorativas, por exemplo). Surgiu logo após um período de industrialização na Europa, em que as pessoas buscavam trazer de volta a “humanidade e a natureza” – e também, aumentar o luxo de alguns ambientes, na belle époque europeia. Como as técnicas para manipular materiais como o ferro e o vidro estavam mais avançadas, era possível criar as linhas sinuosas e formas orgânicas necessárias para reproduzir formas da natureza na arquitetura e em objetos cotidianos.
Independentemente de sua aplicação – na elaboração de uma janela para uma casa, ou de uma gravura para um anúncio – a art nouveau sempre apresenta algumas características: linhas sinuosas; formas orgânicas; presença de elementos naturais, sobretudo folhas, flores, libélulas, pássaros, crustáceos e peixes; subjetividade e simbolismo, com obras remetendo para o mundo dos sonhos, e, muitas vezes, do erotismo. O art nouveau é um estilo eminentemente internacional, com denominações variadas nos diferentes países.
            Alguns de seus artistas importantes foram Victor Horta - projetista e arquiteto belga, Ferdinand Hodler (pintor suíço), Emile Gallé (designer e artesão francês), Alfons Maria Mucha (designer e ilustrador checo), August Endell (arquiteto alemão), Jan Toorop (pintor holandês), Hector Guimard (arquiteto e desenhista industrial francês), Antoni Gaudí (arquiteto espanhol), Henry van de Velde (projetista, designer e arquiteto belga), Gustav Klimt (pintor austríaco), Joseph Olbrich (arquiteto austríaco), Les Vingt (pintor belga), Emilie Flöge (designer austríaca).


Legenda: Retrato de Adele Bloch-Bauer I - Gustav Klimt, 1905

            A Metafísica foi a última corrente escolhida. Enquanto pintura, a arte metafisica tem inspiração na ciência Metafísica, que estuda tudo que se manifesta de maneira sobrenatural. Surgida no século XX, a pintura metafísica explora os efeitos de luzes misteriosas, sombras sedutoras e cores ricas e profundas, de plástica despojada e escultural. A pintura deve criar um impressão de mistério, através de associações pouco comuns de objetos totalmente imprevistos, em arcadas e arquiteturas puras, idealizadas, muitas vezes com a inclusão de estátuas, manequins, frutas, legumes, numa transfiguração toda especial, em curiosas perspectivas divergentes.
            Apesar das diferenças da produção artística de cada um dos pintores deste movimento, é possível identificar algumas características comuns, como a fixação em representações figurativas com referências à arte clássica; a recusa da expressão do movimento; o afastamento relativamente à estética industrial ou ligada à máquina; a procura de objetos do quotidiano e de espaços urbanos para criar um universo misterioso.
            Giorgio De Chirico foi a figura mais emblemática e o líder deste movimento, segundo ele, para que fosse verdadeiramente imortal, uma obra de arte teria que abandonar por completo os limites do humano. A Pintura Metafísica de De Chirico tem origem quando se extrai uma obra do ponto mais profundo de seu ser, indo até onde tudo o que existe é silêncio e onde toda a presença se dá pela ausência.
Para o artista elementos clássicos da pintura italiana (como o espaço em perspectiva e as arquiteturas urbanas, somados à evocação de lugares, especialmente Ferrara, com suas amplas perspectivas, brancas e desertas) levariam-o a um mergulho em sua alma que, por sua vez, o conduziria inevitavelmente a uma arte metafísica. Nessa busca por algo que está além do que se vê e que antecipa a própria paisagem juntaram-se outros artistas de destaque como Giorgio Morandi, Atanásio Soldati, Carlo Carrà, entre outros.


                                              Legenda: Giorgio De Chirico - A comédia e a tragédia, 1926