terça-feira, 21 de outubro de 2014

Folly

                                                                                           por Thalita Fernandes



Quem tiver o interesse e a oportunidade de visitar Inhotim não pode deixar de conhecer uma das galerias mais agradáveis do lugar. A G-14, Folly, da artista mineira Valeska Soares é um universo maravilhosamente aconchegante e reflexivo. Como escrito na placa de apresentação da obra: “Sua calculada posição, ao final do lago cercada por plantas, remete à uma experiência romântica e também introspectiva.”

Logo na chegada com um caminho recoberto por pedras ornamentais, as quais a sonoridade ao pisar estabelece um contato com o ambiente, é possível observar diversas flores encontradas em jardins residenciais, o que torna o ambiente familiar.

O interior da galeria é escuro e espelhado, tendo ao centro um vídeo projetado com três personagens aparecendo e desaparecendo na leveza de uma dança de salão. Por conta dos espelhos, a imagem vai se desdobrando em todas as paredes, sendo permitido estar em qualquer posição na sala para a dança.

Em determinado momento, você não vai querer mais assistir o vídeo, apenas fechar os olhos e se aprofundar no momento. Ao som de The Look of Love, você se sente em uma das novelas de Manoel Carlos. A vontade de dançar e rodopiar de um lado para o outro é imensa, só precisa ser desinibido.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A transposição do corpo na arte sensorial de Cardiff e Miller

Por Jéssica Miranda

Em The Murder of Crows (o assassinato dos corvos em uma tradução literal), de 2008, é uma instalação com 98 caixas de som montadas sobre pedestais, distribuídas à maneira de uma orquestra. O espaço contém cadeiras para que o visitante possa se sentar e entrar dentro desse pesadelo. Gerada por técnicas especiais de gravação e de reprodução polifônicas, a obra em áudio emana das caixas de som e é composta por cantigas de ninar, marchas, textos e composições musicais. Um som dá sequência ao outro, evocando uma narrativa onírica. A instalação foi concebida como um filme ou uma peça teatral, mas aqui as imagens e estruturas narrativas são criadas apenas pelo som. Inspirada na gravura de O sono da razão produz monstros (Goya - 1799), que demostra os terrores noturnos, os pesadelos. Entre os intervalos dos diversos sons que são “sentidos” pelo visitante, a voz de Janet Cardiff faz-se ouvir pelo megafone posicionado no centro, recitando sequências de pesadelos. Inhotim disponibilizou aos visitantes, um “roteiro” de tudo que ocorre no espaço, inclusive o relato de Cardiff é traduzido para que haja uma maior compreensão da obra.  A duração de toda a narração e sons tem tempo total de 30 minutos. 
          


Os tons mais escuros são atribuídos às criaturas, tornando-as assustadoras e transmitindo a ideia de assombrações. O escrito presente na mesa que o artista dorme, traz a seguinte inscrição: enquanto a razão dorme, os monstros aproveitam.

Janet Cardiff     
    A artista canadense é formada em fotografia e gravura pela Universidade de Alberta. Em 1983, filma em super 8 com George Miller (seu colega de faculdade, futuro marido e parceiro artístico) The Guardian Angel. É depois dessa experiência que Cardiff inclui em seu trabalho a sequência narrativa e experiências com som e movimento. A artista defini seu trabalho como um “passeio de áudio”.
  Cardiff tem reconhecimento internacional a partir de 1995 e já teve suas obras solos expostas em espaços como o Museu Louisiana na Dinamarca; San Francisco Museum of Modern Art;  National Gallery of Canada (essa uma exposição permanente); Hirshhorn Museum and Sculpture Garden nos EUA; MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York e na Bienal de São Paulo. 

George Bures Miller

   O artista é conterrâneo da esposa e vivem hoje em Berlim, ponto de efervescência artística da Europa. Desde do início da carreira tem criado colaborativamente a esposa, concretizando obras como The Pool Dark ,instalação multimídia que consiste em um quarto mal iluminado, decorado com papelão, tapetes, e coisas efêmeras e artefatos recolhidos, através do qual os visitantes ao se mover, provoca sons que interagem com segmentos musicais, partes de conversas, e pedaços de histórias e Instituto Paradise, um cinema de 16 lugares onde os espectadores assistiram a um filme , onde se tornam testemunhas de um possível crime, transformando o que se passa na tela em algo real.


A experiência

  Nas andanças que Inhotim proporciona, é um contraponto quando se chega ao Galpão Cardiff e Miller. Precisamos sentar e fechar os olhos. Sim, fechar os olhos. É dessa forma que conseguimos sentir de maneira mais profunda tudo que ocorre. Conseguimos imaginar que estranhos à frente de um pelotão de soldados; vemos a areia dançando com o vento, sentimos a brisa do mar, sabemos que existem gaivotas acima das nossas cabeças. Por vezes é preciso abrir os olhos apenas para se ter certeza que não existe ninguém andando ao nosso lado. A experiência é profunda e chega a arrepiar. Por mais que se tenha certeza que estamos à frente de caixas de som, nosso cérebro é bobo e cai facilmente no truque. Essa é a genialidade da obra, levar-nos  a um lugar muito distante de onde nosso corpo físico está, transportando nossa mente e alma para o ponto mais profundo de nosso inconsciente, onde moram nossos pesadelos, medos e angustias.









segunda-feira, 14 de julho de 2014

Kitsch

Bruno Cézar, Fernando Altoé, Ana Karolina e Nathan Fiorese

O termo kitsch é utilizado para designar o mau gosto artístico e produções consideradas de qualidade inferior.  Sua origem remonta ao vocabulário dos artistas e colecionadores de arte em Munique, em torno de 1860 e 1870, para designar objetos de arte, feitos de propósito para satisfazer a procura de uma nova clientela endinheirada.
Negação do autêntico, cópia e artificialidade são os significados frequentemente associados aos objetos e produções kitsch, encontráveis tanto nas artes visuais, na literatura e na música, quanto no design e na profusão de produtos que cercam o cotidiano, realçando o seu caráter popular.


Theodor Adorno, Hermann Broch e Clement Greenberg foram os teóricos que mais contribuíram para disseminar o conceito do Kitsch, contrapondo-o às obras moderna e de vanguarda. O estilo Kitsch dilacera todas as linhas que separam o belo do feio, o bom do mau-gosto, e convence o indivíduo não iniciado nos meandros da arte que, ao encontrar esta forma de expressão, ele se deparou com a mais elevada produção cultural. Os elementos que o compõem são sempre teatrais, sensuais, emocionais e excessivos.


De um ponto de vista estético, kitsch é uma arte eclética cujo princípio estrutural é mais acumulativo de que arquitetônico. Kitsch favorece a abundância, o elemento decorativo, a não-funcionalidade e a trivialidade. Produzido para ser vendido, kitsch adapta-se ao gosto do público, estimulando uma emocionalidade cómoda, perto do sentimentalismo. Em termos de recepção, kitsch é de assimilação fácil: gratifica as expectativas do consumidor e assenta numa medianidade de gosto que as mídias e a publicidade simultaneamente produzem e satisfazem.
A arte pop retira o sentido pejorativo que cerca o kitsch. Se apresenta como um dos movimentos que recusam a separação arte/vida, pela incorporação das histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema. Ao aproximar arte e design comercial, os artistas superam, propositadamente, as fronteiras entre arte erudita e arte popular, ou entre arte elevada e cultura de massa, flertando sistematicamente com o kitsch.