quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Irreverência e originalidade em Marcel Duchamp

Bruno Monteiro

Marcel Duchamp 1956
       De espírito inquieto e contestador, Marcel Duchamp fez da sua obra uma sequência de questionamentos irônicos acerca dos “padrões” e “regras” que habitavam o mundo da arte. Duchamp propôs novos métodos para a realização da arte, partindo de idéias, e abriu as portas para que a arte pudesse se tornar uma roda de bicicleta em cima de um banquinho, ou uma lata de merda, como na obra “A merda do artista” (1961), de Piero Manzoni.

Em sua juventude, adquiriu gosto pelo simbolismo pintando e prestando homenagens ao pintor simbolista Odion Redon. Nessa época, sua obra mostrava influências do Cubismo, Fauvismo e Pós Impressionismo. Ao frequentar a Academie Julian em Paris, pintava quadros impressionistas segundo ele “só para ver como eles faziam isso”.

              Duchamp era um artista muito pensativo e gostava de criar trocadilhos visuais e verbais, fazendo de sua obra uma confluência entre criação artística, contação de piadas e joguetes. Em 1912, criou em estilo cubista o nu intitulado “Nu descendo uma escadaria, n° 2”.  A obra causou certo alvoroço e gerou discussão com o grupo Puteaux, ao qual era ligado na época juntamente com Francis Picabia, Roberto Delaunay e Juan Gris. Duchamp submeteu seu trabalho ao Salon des Indépendants Cubista, no entanto, lhe pediram para que mudasse o nome da obra ou a retirasse da mostra. A obra foi retirada da exposição e Duchamp se desligou do grupo.  

Nu descendo uma escadaria N 2

         Diferente do nu estático que atravessou a história da arte, o nu de Duchamp se movimenta através de formas abstratas ao descer as escadas. Enquanto o cubismo procura representar diferentes pontos de vista em um momento, Duchamp faz um nu fragmentado, nada tradicional, e o representa de um único ponto de vista em momentos diferentes. Mais tarde, Duchamp irá submeter o mesmo trabalho ao Armory Show de Nova York, onde iria receber maior aceitação, apesar de o próprio Duchamp ter se decepcionado com a falta de receptividade dos artistas de “vanguarda” da época.  

     Cansado de dançar conforme a música, Duchamp decide se desvincular da pintura tradicional, desenvolvendo um estilo que iria subverter a arte para sempre: o ready-made. Nessa nova fase de seu trabalho, o artista questionador chega à conclusão de que qualquer objeto banal ou inustrializado pode ser transformado em arte. Sua primeira obra de tal natureza foi “A roda da bicicleta” (1913), em que uma roda de bicicleta é fixada num banquinho. Porém, sua obra mais famosa e polêmica é “A fonte” (1917), um urinol de porcelana com a assinatura “R. Mutt” escandaliza até os dias de hoje.

A fonte 1917
A roda de bicicleta 1913

        Segundo Duchamp, a escolha dos ready-mades nada tem a ver com o deleite estético-visual. O ready-mady é uma espécie de exaltação à anti-arte, que será abraçado pelo movimento dadaísta e tem como principal intuito a indiferença, a visualização desvinculada de bom ou mau gosto, ou até mesmo um tipo de anestesia à obra. Ao se libertar da pintura, Duchamp queria causar algo mais que simples impressões visuais.

      Uma de suas últimas e principais obras é “O grande vidro”, uma pintura sobre uma placa de vidro, dividido em duas seções. A parte superior foi chamada “A noiva desnudada pelos seus celibatários” e contem uma figura abstrata que seria a noiva; na parte de baixo, chamada “Moinho de chocolate”, há várias outras figuras feitas de tecido, cabides e outros materiais diversos, dispostos em círculo ao lado de uma engrenagem. A obra gera uma série de opiniões conflitantes e é considerada um enigma, por isso deve ser, além de ser contemplada, decifrada. É interessante o fato de que ao transportar O Grande Vidro a obra sofreu uma queda e o vidro trincou, no entanto, Duchamp ponderou que os danos causados à obra tornaram-na perfeita para os seus objetivos. 

       Ainda na década de 20, Duchamp abandonou a criação artística para se dedicar ao xadrez, no entanto, deixou um legado vasto que se liga aos movimentos cubista, dadaísta e surrealista,  e hoje é visto como um dos precursores das artes conceitual e minimalista influenciando gerações de artistas.  

O grande Vidro 1923


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Arte do tempo e da memória

Marcelle Louise
A sociedade contemporânea vive um momento de “crise” do tempo, muito marcado pela supressão espaço-tempo e supervalorização do presente. Essas relações, segundo Kátia Canton em seu livro Tempo e Memória, influenciam a produção artística, que se volta para a evocação da memória.
Nesse sentido, alguns artistas propuseram obras sobre a memória de tempos internos, focada nas pequenas coisas. Um exemplo disso é o vídeo Between – inventário de pequenas mortes, em que o artista mineiro Cao Guimarães retrata detalhes insignificantes do cotidiano.
O artista paraibano José Rufino também trabalha a memória, mas a partir da própria história de sua própria família, utilizando móveis antigos para compor suas obras. Em uma série, ele retrata as sensações que estão nas lembranças dele da infância: “respirar”, “gritar”, “lacrimejar” e “suar”.

José Rufino. Respiratio, 1995. 

Outra série do artista chamada Cartas de Areia é construída com cartas endereçadas ao avô, o verdadeiro José Rufino (o nome do artista também evoca a memória da família). A obra retrata registros de histórias de amor, solidão, sentimentos universais e que estão presentes na memória não só da família dele. Isto faz com que as pessoas interajam com ela de alguma forma e sintam-se parte dela. 

José Rufino. Cartas de Areia, 1991. 


Em 2003, José Rufino foi diretor de arte do filme curta-metragem Transubstancial , uma homenagem ao poeta também paraibano Augusto dos Anjos. No filme, Rufino compõe uma poética de imagens com a criação de vastos territórios da memória transitando entre a invenção e a reconstrução.

Preocupada com questão do tempo, da falta de tempo, a artista Sandra Cinto criou instalações com esculturas que servem como bancos, com o propósito de fazer com que as pessoas se sentem e tentem compreender o trabalho. Ela utiliza objetos íntimos do nosso dia a dia como a cama, a mesa, que, para ela, são símbolos da memória.



Sandra Cinto. Exposição “Imitação da Água”. 

Sandra Cinto acredita que o desafio do artista contemporâneo é fazer com que as pessoas parem para ver suas obras, se envolvam. Segundo ela, é preciso refletir sobre o passado para viver o presente e isso só pode ser feito com a preservação da memória.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A arte e a palavra

Júlia Boaventura
Em seu livro Narrativas Enviesadas, a escritora Katia Canton desenvolve um tópico especial sobre o uso de imagens e palavras nas obras de artistas contemporâneos. Segundo ela, durante a década de 60 e 70, artistas conceituais como Joseph Kusuth começaram a dar destaque às palavras como plataforma artística. Dessa forma, Kusuth cria obras icônicas, que exploram e discutem acerca da natureza da arte, utilizando seu poder de auto-referência. Esse é o caso de fourcolorsfourwords (quatrocoresquatropalavras), criação que retrata as
 quatro palavras do título escritas em neon, cada uma apresentando uma cor diferente, em uma espécie de metalinguagem.
"Quatro Cores Quatro Palavras" Joseph Kusuth
Outro exemplo marcante do uso de palavras na arte contemporânea é o trabalho da norte-americana Barbara Kruger. A artista nasceu no ano de 1945, em New Jersey. Frequentava a Escola de Artes Visuais da Universidade de Syracuse e estudou Arte e Design na Escola de Design de Parson.
Durante o início da sua carreira, Barbara trabalhou durante onze anos como designer gráfica e diretora de arte na revista de moda Mademoiselle, período que posteriormente influenciou muito as criações da artista, que alcançaram um estrondoso e rápido sucesso.


A produção da norte-americana se concentra, sobretudo, em sobreposições de imagens em preto e branco – a maioria amplamente divulgada pela mídia de massa - e mensagens com letra semelhante às de embalagens de medicamentos, geralmente redigidas em vermelho. O resultado dessas montagens são anúncios ambíguos, que causam estranhamento, mas que provocam discussões acerca de questões importantes como consumismo, feminismo e identidade.


Apesar da constante crítica ao consumismo, presente em suas criações, muitas de suas montagens acabaram sendo veiculadas em shoppings centers, camisetas, outdoors. Além disso, o trabalho da artista também pode ser visto em museus e galerias. Atualmente, Kruger é professora, escritora, artista, curadora e designer, e está com 68 anos.


Por fim, um trabalho que ganhou destaque atualmente foi o 12 Months of Neon Love (12 Meses de Amor e Neon), produzido pelos artistas Victoria Lucas e Richard William Wheater. Nesse projeto, foram criados doze letreiros de neon vermelho que trazem trechos de canções consagradas que falam sobre o amor. A banda Joy Division, a cantora Annie Lennox e o cantor Bob Marley são alguns dos que emprestam suas palavras para os gigantescos letreiros, expostos sobre o telhado do estúdio dos artistas. Neste link, você confere mais sobre esse trabalho: http://www.ideafixa.com/neon-love/